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Notas de Uma Solidão Lúcida...

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  Não há coisa mais enfadonha do que ouvir os sonhos dos outros. Eu nem dou conta dos meus, e tenho alguns recorrentes, mas só sei que o são no próprio sonho. Outro tédio: as anedotas.  O que me faz rir, e eu adoro rir, é diferente do que faz rir as pessoas com quem tenho de conviver. Rio-me sempre em tempos diferentes, e por norma, sozinha. Reporto-me à série 'Allo 'Allo!: eu, perdida de riso, e os meus amigos, na altura, com cara de caso a olhar para mim. Monty Python dava na RTP2; só eu gostava. Rui Veloso diz que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Também é válido para quem não partilha o mesmo sentido de humor, nem o interesse pelos mesmos temas de conversa. Eu rio-me com o absurdo, com a sátira mordaz, com a ironia disfarçada. Com a capacidade de expor a hipocrisia e as contradições sociais de forma hilariante, mas elegante. Fugindo sempre da lógica convencional. Segundo os entendidos, um riso que, por ser mais cerebral e menos imediato, é naturalmente solitári...

A Dignidade do Caos...

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    Leio o Livro do Desassossego. Fernando Pessoa fala da dignidade do tédio. Ouço Edith Piaf: "La Foule". Queixa-se da multidão que, primeiro, a lança nos braços do seu amor, para, logo depois, a mesma multidão a afastar dele. Eu já fui afastada por menos. Intercalo a leitura com outro livro. Nunca consigo ler apenas um. Bebo chá Earl Grey, o meu preferido, numa caneca comprada no Líbano, quando o Líbano ainda recuperava das feridas. Hoje, novamente em sofrimento. Acompanho o chá com bombons, recomendado pelo senhor "S.", o segurança. Gosto, mas continuo a preferir chocolate com queijo da ilha.   Quase meia-noite. Dezoito graus. Uma lua deitada, quarto crescente, creio. A secretária num desalinho. Fernando Pessoa sugere dignidade no tédio. Pudesse eu pôr alguma dignidade no caos.