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Reincidência Inevitável das palavras...

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  O meu pensamento, um simulacro de palavras, vítimas de atropelamento e fuga. Espalham-se em contramão, inconscientes, como fragmentos de um puzzle de conclusão aleatória. Num alfabeto de esperança que se basta, como uma eremita urbana, era urgente terem morrido na véspera. Salto alto, saudade negligente, que desfila como vírgulas em ponto de espera para ser ponto e vírgula e é apenas exclamação. Afasto o cabelo em desdém como quem apaga no papel, as palavras sinistradas, proibidas de formar pensamentos. Num último suspiro, falam-me de coisas que nunca disse, de memórias que talvez não sejam minhas. Arrastam-se, tropeçam umas nas outras, até se confundirem com o pó do léxico. Às vezes penso que são elas que me pensam, que a minha mente é apenas o cenário do seu acidente. E eu fico aqui, entre o rescaldo e a tentativa, a observar o trânsito caótico das ideias, na esperança de que alguma palavra, intacta, numa amnésia improvisada, não saiba o caminho de volta. Não podem sobreviver, ...

Na sombra de um gesto...

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               O que sinto já não coincide com o que senti. Apenas um resíduo esquecido no bolso, se chamarmos bolso ao pensamento, um lugar onde se guarda o que já não se quer ver. Metáfora sem saudade, isenta de qualquer abandono anterior. O murmúrio de um sentimento que se apagou devagar, perdeu nome e rosto na sombra de um gesto antigo desfeito pelo tempo.     Foto do meu álbum "Eu e o Mar".

Persistência fragmentada...

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  Palavras cerradas pela raiva, que adquiriu a fisionomia da pedra. Mas eu… já lá não estava. Acuso-me. Atiro-me para longe, congelo o desejo do retrocesso. E o pensamento, soletrado, ali tão perto… Espalho o meu destino pelo vento. Uma a uma, farripas de contradição ditam o veredicto do perder fabricado pela novidade incorreta. Era para lá que eu ia… O que sobrou do reflexo inverso ao do espelho? Vontades desfeitas, no sentido oposto ao ponteiro que falhou. Foi o que eu aprendi… Desmemórias traduzidas da marca dos passos na terra batida. Quem não lembrou que tudo em mim era um pouco do que fingi? E o belo tornou-se vulgar. Não foi o que quis esquecer… "Foto editada por Photomania"

A Sabedoria do Absurdo...

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  O pensamento é o que de mais solitário existe em mim. Continuo a não gostar de falar do tempo, seja ele qual for.  É no agora que me fixo, mesmo sem saber estar. Ou saber ser.  Sei que as palavras se salvam na omissão. Culpada de homicídio qualificado, na forma tentada, da saudade, quando regresso a casa.   A noite, sinto-a por dentro. Como um luto integral.  Pinto a natureza morta de dois estados que se respeitam mutuamente: o que ficou por sentir e  querer sentir. Ignorar é a mais difícil aprendizagem. E transborda-me como uma cascata que deságua na vagarosa floração dos afetos.  O absurdo é, secretamente, o que de mais sofisticado existe em mim...  

Olinda...

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  Olinda, a única água que suportava era a do mar e a que viesse diretamente do céu. Os únicos pássaros que conhecia eram as gaivotas, e o seu meio de transporte era o sonho naufragado, encalhado, que se movia ao sabor da imaginação. Era intolerante a tudo o que tivesse tecto. Nem sempre foi assim. Houve tempos em que tentou escalar a linha da normalidade, sempre em crescendo. No entanto, a normalidade tem prazo de validade e capacidade de se renovar, inovando. Sem estabilidade, perde-se o equilíbrio, e Olinda sentiu-se ultrapassada, rasgada, como se fosse papel. Não passou a viver do ar, mas sim do que lhe davam. E à noite, dormia sob as estrelas, mais numerosas do que as que qualquer hotel pudesse ostentar. Mas Olinda não estava feliz. Ninguém é feliz sozinho. Ou melhor, ninguém é feliz sem alguém a quem exibir a felicidade. Esse pensamento fez com que se sentisse uma pessoa normal. E rejeitou-o. Abrigada sob a espessa capa da designação social "Sem Abrigo", sentia-se prote...