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Lágrimas de Vidro...

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  Chuva e vento desassossegados falam uma linguagem que não domino. Cúmplices no homicídio qualificado, na forma tentada, de afogar o outono. O abacateiro suporta firme a enxurrada. A água que não sustem desliza em cada folha como se fossem lágrimas. Por trás da vidraça, testemunha silenciosa, em apneia, para não perturbar o momento...

Falácias e Chocolate Quente...

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  Se viveria num país tropical? Sem hesitar, sim, sempre. Mas não deixo de ter um certo apreço por estes dias cinzentos, de chuva fina. Sem vento. Não gosto do vento, na mesma proporção em que ele não gosta de mim. A nossa relação é de mútua e fria indiferença. Pode considerar-se esta afirmação uma falácia patética, admito. Um erro de lógica que atribui sentimentos a algo inanimado. Mas eu e as falácias convivemos bem. E eu sei sempre quem gosta, ou não, de mim: sejam animais, coisas, pessoas, estados meteorológicos, meses, dias, horas ou segundos. Um eco que me sussurra "bem-vindo", ou uma sombra me adverte: "passa à frente.” E eu obedeço. Hoje, chove como eu gosto: sem frio e sem vento. Saí para a rua, toda eu sorrisos, debaixo daquela chuva que molha parvos. E molhou-me a mim. De volta a casa, preparei um chocolate quente, pus Tom Waits  a cantar baixinho e abri um livro. A chuva, lá fora, acompanhava o som da voz e o virar das páginas. E, por um breve instante, senti...

Outono em duas paragens...

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        Da janela do comboio, as estações avançam lentas, como um outono tardio. A paisagem recusa vestir-se com pinceladas de ouro gasto. O comboio não apita a anunciar a estação seguinte. Pouca terra… pouca terra… As janelas tornam-se espelhos onde o outono se penteia. Espelhos. O olhar de quem observa e é observado. E eu, aqui ... sou a paisagem que passa, a passageira que fica. Outono Cada folha no chão é uma carta que o verão esqueceu de enviar. Dentro de mim, as estações também mudam, devagar, e sempre um pouco tarde. Pouca terra… pouca terra… E o outono é a estação seguinte, sem ninguém à minha espera. Santa Apolónia ficou para trás. E assim, entre paragens e outonos tardios,  cada estação, do ano ou do comboio, chega sempre, mesmo quando ninguém nos espera...