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A consoada...

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     Imagem do meu álbum "Natal na aldeia" I Fechou a porta. Confirmou que tinha o porta moedas no bolso do avental e seguiu pela vereda estreita, com a alcofa das compras pendurada no braço.  Tinha tudo bem planeado, caso lhe perguntassem, ia passar o Natal com a filha, a Lisboa. Foi o que disse à Alice, a vizinha do lado, quando a convidou para ir passar a consoada com eles. Alice tinha a casa cheia, as filhas, os dois genros e os 3 netos.  No caminho encontrou pouca gente, mas a pergunta inevitável surgiu. Uma deu-lhe filhós, para levar à filha. Outra deu-lhe duas farinheiras, uma morcela e uma chouriça. Não teve como recusar. Quando chegou à mercearia já levava a alcofa cheia. Comprou duas caixas de bombons, daqueles caros que a filha gosta. Pediu para embrulhar e escolheu um laço dourado. À pergunta da merceeira, respondeu que ia no dia seguinte, na carreira que passa no bairro às sete e dez. A filha ia esperá-la à estação. Ela própria acreditou no qu...

Recado ao Pai Natal...

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    Meu querido, este ano sou só eu.  A gata Luna foi para o céu, já deve saber. Corre por pastos onde não há inverno. A falta que ela faz, é uma presença que eu ainda consigo sentir. Não se preocupe em passar por aqui. Não há sapatinhos na chaminé. A menos que queira descansar ou, quem sabe, até jantar. Mas em silêncio, como dois amigos que não precisam de palavras. Não teremos couves nem bacalhau. Nem doces. Nem vinho do Porto. Nem árvore de Natal. Nem vontade de ter. Ignore a sugestão. Descanse e jante numa casa com Natal, a festa da família.  Na minha restam lugares vazios, sem nomes e sem rostos. Nunca foram preenchidos. Eu não sou filha de ninguém. Sem dramas. Por vezes, a maior celebração é apenas estar em paz com o vazio. E estou.  Que a luz desta época chegue a todos, não só pelo brilho das decorações, mas pelo calor que guardamos cá dentro.  Feliz Natal.

Desembrulhar Gestos...

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Há presentes que chegam embrulhados em papel e assim permanecem. Prometi abrir na noite e à hora em que, supostamente, o Pai Natal anda a distribuir presentes a quem se portou bem.     Há presentes que chegam embrulhados em gestos. Poemas Reunidos , de Pedro Mexia, é um deles. É quase como quem chega a casa e encontra uma voz conhecida à espera.     Vai para a prateleira das vozes que acho que conheço, aquelas a que regresso vezes sem conta para reler um conto, um poema, uma frase. Como quem desembala pesamentos...    Ontem, por exemplo, José da Xã foi a companhia ao jantar.    Que sorte a minha...

Pré-hibernação...

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  Quase Natal. A fase ideal para me fingir de morta e assim evitar recusar os convites dos que insistem em não desistir. Já avisei que vou hibernar. Tenciono negligenciar todos os jantares próprios da época. Cheguei àquele ponto em que o espírito natalício desperta mais vontade de desaparecer do que de pendurar luzes. Os convívios sugam mais energia do que um turno inteiro de trabalho e a repetição das mesmas conversas sobre idade e artroses  torna tudo ainda mais desmotivante. Todas da mesma geração: umas dizem que estão velhas e acusam as outras de não assumirem os anos que têm. Quero lá saber se quem tem a minha idade se sente velho. Não se deixasse envelhecer. Ai e tal, já não vamos para novas. Eu, vou. Vou para nova, para aqui, para ali, vou para onde eu quiser. A sorte é  não ter o hábito de comprar presentes para porem no sapatinho. Ia tudo corrido a bengalas (o corretor sugere-me bengaladas, calma, não chegamos a tanto). Se alguém me perguntar o que desejo para 2026, a resposta...

Pijamas, estrelas, pizza e gatas travessas...

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  Os meu votos de Natal, para além da saúdinha, paz e amor, é que a vossa balança tenha mais espírito natalício do que a minha, estou farta de comer doces e não consegui emagrecer um único quilinho.       Noite de Natal. Rejeitados e devidamente agradecidos todos os convites para passar a noite em casa alheia (eu sou uma pariga séria). A habitual troca de doces com a vizinha do lado. Silencio o telemóvel. O som das mensagens natalícias, em catadupa, fazem lembrar badaladas. Temo que os fiéis se confundam e pensem que é aqui a missa do galo.  Vestida a rigor, pijama. Mas não é um pijama qualquer, comprado na loja do chinês, tem uma estrela e tudo. Mantenho a tradição, pizza. Há quem coma bacalhau com couves, nunca vou perceber porquê, a tradição já não é o que era. A vantagem de ser sozinho é que temos toda uma mesa só para nós. A desvantagem é não conseguir abrir a garrafa de champanhe, nada que um saca rolhas não resolva. Fica a prova que passar o Natal sozinha também tem os seus enca...

ESTAMOS TODOS...

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  "Só se começa a comer quando estivermos todos à mesa." Há anos que não ouço esta frase; acredito que continue em uso. Curiosamente, reparo que é uma expressão de família, maioritariamente usada nesse contexto. É uma frase de conforto. Quando a ouvia, não tinha o conceito de família. Soava-me a ultimato, uma imposição. Ainda hoje não tenho o conceito de família, e queria tanto ter. Por inerência, e dado que o Natal é a festa da família, também não tenho o conceito de Natal. Às vezes, imagino-me numa mesa enorme, em noite de consoada, rodeada de gente à qual não consigo atribuir um rosto. Eu e os meus fantasmas. Desisto. Decididamente, não gosto do Natal, apesar de ter enfeites espalhados pela casa e das comidas tradicionais na mesa. Que é posta só para um. A gata Luna aninhada na cadeira, ao meu lado. Em frente, o ursinho Frusky, que tem quase a minha idade. Sentar um ursinho de peluche à mesa é quase um sinal de demência, mas é a sensação de estarmos todos. Estamos todos. P...

OS QUE NEM NO NATAL SE LEMBRAM DE NÓS...

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Acredito que haja pessoas que gostem, genuinamente, do Natal. Da azáfama, das prendinhas no sapatinho, de receber amigos e familiares. De se lembrarem de quem, ao longo do ano, vão apenas recordando, ou nem isso. Para mim, prefiro aqueles que só se lembram dos outros no Natal aos que nem no Natal se lembram de alguém. Essas pessoas, as que gostam genuinamente do Natal, acabam muitas vezes devastadas, acusadas de hipócritas e de consumistas por quem não reúne condições para gostar desta época. E têm todo o direito de não gostar. Todos os motivos são válidos para não gostar do Natal. Eu própria não gosto, mas gosto imenso que haja quem goste. Gente que consuma, os lojistas, que também têm contas para pagar, agradecem. Gente que distribua risos e abraços que outros chamam falsos. Preparem-se, porque nesta altura vão ler inúmeras vezes que são isto e aquilo. O Natal ainda nem começou e palavras como hipócrita, falso e consumista já abundam por aí. Sim, eu também não gosto do Natal. Não reú...