Amor, Água Benta e Outras Assombrações...
Estranhamente, todos estavam impecavelmente vestidos, como se fosse dia de festa. O senhor ao meu lado, um pouco pálido, não por acaso, claro, não deixava de ser um defunto jeitoso. Sempre fui sensível a um homem de fato. Morto ou vivo (fiquei a saber). Deduzi que fosse bastante popular dado o número de pessoas a chorar por ele. O problema de ter um velório partilhado era lidar com os pingos de água benta que os amigos do falecido faziam questão de dividir comigo. Que os reservassem para ele! Já bastava estar morta, e ainda ter de passar por esta provação. Resolvi então sair de mim e vaguear pelo teto, espreitar os inconsoláveis familiares do jeitoso lá de baixo. Cheguei a desafiá-lo para me acompanhar, mas ele, de nariz empinado, parecia demasiado compenetrado em absorver a dor dos herdeiros que entre uma lágrima e outra iam calculando o valor das partilhas. E ainda dizem que, na morte, somos todos iguais. Ora, o enjoadinho, a dar-se a uns ares de superioridade, como se ignorass...