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Onde Dormem os Medos…

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Na casa da minha avó, as palavras não eram filtradas. Não havia papão. Havia o "homem mau", que me levava, no saco, caso não fizesse o que ela queria. Comer a sopa toda, por exemplo. O homem mau estava sempre presente. Eu imaginava-o vestido de preto, com uma longa barba negra. Supostamente, vivia no sótão da casa, era para lá que a minha avó apontava sempre que ameaçava chamá-lo. Curiosamente, quando se zangava comigo, tratava-me por "você". Eu gostava do homem mau porque, no meu imaginário, atrás dele vinha sempre um príncipe para me salvar. Na casa da minha madrasta, o tratamento era por "você", como se estivesse sempre zangada comigo. Com todos, na verdade. Até o cão e o gato ela tratava por "você". Não por snobismo, gostava genuinamente dessa forma de se dirigir aos outros (e eu também). Não havia homem mau. Por isso, também não havia príncipe. Não havia quem me metesse medo, nem quem me viesse salvar. Hoje, ainda carrego medos. Esperam-me e...

O RAPAZ DO CHAPÉU…

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A estação ferroviária deserta. O normal, dado a hora avançada. Não me preocupei em confirmar o horário do comboio seguinte. Sentei-me, abri o livro na página marcada e tudo ao redor desapareceu. Até que ouço o toque, desafinado, de uma flauta. Um rapaz, com ar de cowboy, mas sem chapéu, tocava para mim. Não estava ali mais ninguém. Continuei a leitura. O rapaz continuou a desafinar. Olhei, de relance, à procura do chapéu que lhe faltava na cabeça, para depositar umas moedas e talvez ele mudasse de poiso. Não havia chapéu. Guardei o livro e aproximei-me. Fez-me duas perguntas, se tinha um cigarro e que livro estava a ler. Dei-lhe o cigarro e mostrei-lhe o livro: "A Redundância da Coragem" de Timothy Mo. Fiz-lhe um resumo da história. Ele gostou e lamentou a improbabilidade de vir a conhecer o final. Num gesto altruísta passei-lhe o livro para a mão. É um empréstimo, disse-lhe. De hoje a 15 dias, à mesma hora, vou estar aqui. E passados 15 dias também. E dificilmente aqui retor...

OS BANDIDOS…

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    A esta distância, já lá vão largos anos, parece-me improvável, impossível até, mas a memória que guardo é que a sala tinha daquelas portas vaivém como nos saloons dos filmes western. Encobertos por uma espessa nuvem de fumo, esperavam-me uns quantos fora da lei, com armas nos coldres presos à cintura. Puxei da minha garrafa de água para eles verem que eu também estava armada. Entrei, a medo, mas depois de oito horas de voo o vício fala mais alto. Os delinquentes, com bigodes até ao pescoço e chapéus de aba larga ao nível das sobrancelhas, afastaram-se e deram-me espaço numa mesa minúscula, com lotação para lá de esgotada, mas onde cabia o meu antebraço, para ter acesso ao cinzeiro. Perguntaram-me de onde era. Fiz que não entendi, cá conversas!!! Só queria repor os níveis de nicotina. Ao segundo cigarro já toda eu era simpatia. Contei-lhes de onde era, para onde ia e o número que calçava em sapato raso. Que diabo, estávamos em quadrilha. Sabia que quem quer que assomasse à...

Olinda, excesso de Infinito…

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Olinda, a única água que suportava era a do mar e a que viesse diretamente do céu. Os únicos pássaros que conhecia eram as gaivotas, e o seu meio de transporte era o sonho naufragado, encalhado, que se movia ao sabor da imaginação. Era intolerante a tudo o que tivesse tecto. Nem sempre foi assim. Houve tempos em que tentou escalar a linha da normalidade, sempre em crescendo. No entanto, a normalidade tem prazo de validade e capacidade de se renovar, inovando. Sem estabilidade, perde-se o equilíbrio, e Olinda sentiu-se ultrapassada, rasgada, como se fosse papel. Não passou a viver do ar, mas sim do que lhe davam. E à noite, dormia sob as estrelas, mais numerosas do que as que qualquer hotel pudesse ostentar. Mas Olinda não estava feliz. Ninguém é feliz sozinho. Ou melhor, ninguém é feliz sem alguém a quem exibir a felicidade. Esse pensamento fez com que se sentisse uma pessoa normal. E rejeitou-o. Abrigada sob a espessa capa da designação social "Sem Abrigo", sentia-se protegi...

História com final feliz...

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  Fui protagonista na tua história de papel. Tropeçando nas vírgulas que me impuseste. Escondida, nas entrelinhas. Sobrevivi à primeira página. Morri antes do fim. Abandonada numa frase por acabar. Engolida por um silêncio e em letra pequenina. Mataste-me com a pressa de um rascunho, rabiscado com lápis de ponta fina. E tiveste o teu final feliz.

Não tenham medo do que não existe..

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  Alguém me disse: se dás atenção à música de um filme, é porque o filme não é bom o suficiente. Possivelmente o filme não foi bom o suficiente. A banda sonora, sim. O refrão, “N’ayez pas peur du bonheur, il n’existe pas”. Assim, como um dogma: “Não tenhas medo da felicidade, ela não existe”. É quase como pedir para não ter medo do papão: ele também não existe. Na verdade, esta frase funciona como um mantra de sobrevivência emocional. É muito mais fácil gerir a ausência definitiva de algo do que a sua volatilidade constante. Se aceitarmos que ela não existe, deixamos de ser reféns da expectativa. Não vou entrar em divagações sobre felicidade, já que é um tema que domino tão bem quanto saber a duração exata do que é efémero. E ser feliz é uma coisa que me irrita. Por norma, o que nos faz felizes no momento, é o que nos causa infelicidade no futuro. E isto também é válido para chocolates e sapatos. Quilos e calos, bem entendido. "As Recordações", nome do filme. Partilho a músic...

O SENHOR DO CACHIMBO...

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  Era costume ir, a uma determinada hora, à janela da marquise para ver o pôr do sol. Na varanda da vivenda em frente, um senhor, de meia idade, barba branca e ar distinto, fumava cachimbo. Se os olhares se cruzassem, dizíamos, imperceptivelmente, boa tarde e nada mais. Por norma, e para meu deleite, havia sempre uma música clássica no ar. Uma em particular que eu gostava muito, sabia que era do Pavarotti, mas não sabia o nome da canção.  Enchi-me de coragem e perguntei-lhe. Caruso, respondeu ele.  A partir desse dia, sempre que eu ia à janela, ele punha Caruso. E eu agradecia-lhe com um acenar de cabeça e sorriso discreto.  O senhor, não sei o nome, manteve o ar distinto, apesar de cada dia mais débil. Quando umas senhoras, vestidas de preto, encerraram de vez as portadas das janelas, deduzi que faleceu. Eu, em homenagem, continuo a ouvir Caruso. O senhor já não está. E mesmo que estivesse, não o poderia ver. Nem ao pôr do sol. As árvores do jardim de baix...

Memórias de um dia de chuva...

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  A frase "vamos tomar um café" tornou-se banal. Um acto de socialização bem aceite e que faz sentido praticar até com quem mal conhecemos ou acabámos de conhecer. Tomar um cafézinho é o mote para estabelecer uma relação, ainda que breve. Há dias, chovia torrencialmente, dei abrigo, no meu minúsculo chapéu de chuva, a um senhor que estava completamente desprotegido de artefactos impermeáveis. Rimos imenso, conversámos o possível e atravessámos estradas com a água pelo tornozelo. Encharcados os dois, na cumplicidade ímpar de quem sabe que o chapéu de chuva não serve de nada quando um dilúvio desaba sobre nós. Passar por isso sozinha seria uma maçada, partilhar a situação com um estranho foi um alívio. Chegados ao destino, estação de comboios, o inevitável convite: "Vamos tomar um café?"- Podia ter-me pedido em casamento, convidar-me para uma viagem a Ulan Bator, podia ter-me até convidado, num plano mais radical, surfarmos a onda da Nazaré. Mas não! Convidou-me para ...

Sombras em azul ...

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Um pensamento parado, de cor azul. Azul da cor do silêncio que a chuva lavou. Um desejo inerte, ao relento, como uma página riscada. Ou o copo meio cheio. O relento também é azul, como o pensamento, num diálogo a duas sombras.  Incoerências cronológicas na ausência. Desconcertante como um rio que recusa desaguar porque tem medo do mar.  É no ontem que semeamos os momentos que colhemos, mas continuaremos a dizer até amanhã, até logo, até depois… nunca até ontem. Porque um amo-te implica um eu também. Porque sim.  Vaguear por aí, desabitada de olhares vagos, recolhendo beijos deixados no tempo. Prendendo abraços. Libertando memórias azuis da cor do pensamento. E do relento. O relento é azul. Reflexo esbatido, como sombras envergonhadas que as nuvens tocam ao sabor da imaginação.  Perco-me e reencontro-me nesses afetos, para logo desistir, diluída no fumo das palavras queimadas. Que a verdade queimou. Transfiro-me definitivamente para o lado azul, sem nada a declarar. E...

Reincidência Inevitável das palavras...

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  O meu pensamento, um simulacro de palavras, vítimas de atropelamento e fuga. Espalham-se em contramão, inconscientes, como fragmentos de um puzzle de conclusão aleatória. Num alfabeto de esperança que se basta, como uma eremita urbana, era urgente terem morrido na véspera. Salto alto, saudade negligente, que desfila como vírgulas em ponto de espera para ser ponto e vírgula e é apenas exclamação. Afasto o cabelo em desdém como quem apaga no papel, as palavras sinistradas, proibidas de formar pensamentos. Num último suspiro, falam-me de coisas que nunca disse, de memórias que talvez não sejam minhas. Arrastam-se, tropeçam umas nas outras, até se confundirem com o pó do léxico. Às vezes penso que são elas que me pensam, que a minha mente é apenas o cenário do seu acidente. E eu fico aqui, entre o rescaldo e a tentativa, a observar o trânsito caótico das ideias, na esperança de que alguma palavra, intacta, numa amnésia improvisada, não saiba o caminho de volta. Não podem sobreviver, ...