Onde Dormem os Medos…
Na casa da minha avó, as palavras não eram filtradas. Não havia papão. Havia o "homem mau", que me levava, no saco, caso não fizesse o que ela queria. Comer a sopa toda, por exemplo. O homem mau estava sempre presente. Eu imaginava-o vestido de preto, com uma longa barba negra. Supostamente, vivia no sótão da casa, era para lá que a minha avó apontava sempre que ameaçava chamá-lo. Curiosamente, quando se zangava comigo, tratava-me por "você". Eu gostava do homem mau porque, no meu imaginário, atrás dele vinha sempre um príncipe para me salvar. Na casa da minha madrasta, o tratamento era por "você", como se estivesse sempre zangada comigo. Com todos, na verdade. Até o cão e o gato ela tratava por "você". Não por snobismo, gostava genuinamente dessa forma de se dirigir aos outros (e eu também). Não havia homem mau. Por isso, também não havia príncipe. Não havia quem me metesse medo, nem quem me viesse salvar. Hoje, ainda carrego medos. Esperam-me e...